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CARTA APOSTÓLICA "ROSÁRIUM VIRGINIS MARIAE" |
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INTRODUÇÃO
1. O Rosário da Virgem Maria
(Rosarium Virginis Mariae), que ao sopro do Espírito
de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milênio, é
oração amada por numerosos Santos e estimulada pelo
Magistério. Na sua simplicidade e profundidade, permanece,
mesmo no terceiro Milênio recém-iniciado, uma oração de
grande significado e destinada a produzir frutos de santidade.
Ela enquadra-se perfeitamente no caminho espiritual de um
cristianismo que, passados dois mil anos, nada perdeu do seu
frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de
Deus a « avançar para águas mais profundas » (duc in altum!)
para reafirmar, melhor « gritar » Cristo ao mundo como
Senhor e Salvador, como « caminho, verdade e vida » (Jo 14,
6), como « o fim da história humana, o ponto para onde
tendem os desejos da história e da civilização ».1 Os Romanos Pontífices e o Rosário 2. Muitos dos meus
Predecessores atribuíram grande importância a esta oração.
Merecimento particular teve, a propósito, Leão XIII que, no
dia 1 de Setembro de 1883, promulgava a Encíclica Supremi
apostolatus officio,3 alto pronunciamento com o qual
inaugurava numerosas outras declarações sobre esta oração,
indicando-a como instrumento espiritual eficaz contra os males
da sociedade. Entre os Papas mais recentes, já na época
conciliar, que se distinguiram na promoção do Rosário,
desejo recordar o Beato João XXIII4 e sobretudo Paulo VI que,
na Exortação apostólica Marialis cultus, destacou, em
harmonia com a inspiração do Concílio Vaticano II, o
caráter evangélico do Rosário e a sua orientação
cristológica. Outubro 2002 - Outubro 2003: Ano do Rosário 3. Por isso, na esteira da
reflexão oferecida na Carta apostólica Novo millennio
ineunte na qual convidei o Povo de Deus, após a experiência
jubilar, a « partir de Cristo »,6 senti a necessidade de
desenvolver uma reflexão sobre o Rosário, uma espécie de
coroação marrana da referida Carta apostólica, para exortar
à contemplação do rosto de Cristo na companhia e na escola
de sua Mãe Santíssima. Com efeito, recitar o Rosário nada
mais é senão contemplar com Maria o rosto de Cristo. Para
dar maior relevo a este convite, e tomando como ocasião a
próxima efeméride dos cento e vinte anos da mencionada
Encíclica de Leão XIII, desejo que esta oração seja
especialmente proposta e valorizada nas várias comunidades
cristãs durante o ano. Proclamo, portanto, o período que vai
de Outubro deste ano até Outubro de 2003 Ano do Rosário. Objeções ao Rosário 4. A oportunidade desta
iniciativa emerge de distintas considerações. A primeira
refere-se à urgência de fazer frente a uma certa crise desta
oração, correndo o risco, no atual contexto histórico e
teológico, de ser erradamente debilitada no seu valor e, por
conseguinte, escassamente proposta às novas gerações.
Pensam alguns que a centralidade da Liturgia, justamente
ressaltada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, tenha como
necessária conseqüência uma diminuição da importância do
Rosário. Na verdade, como precisou Paulo VI, esta oração
não só não se opõe à Liturgia, mas serve-lhe de apoio,
visto que introduz nela e dá-lhe continuidade, permitindo
vivê-la com plena participação interior e recolhendo seus
frutos na vida quotidiana. Caminho de contemplação 5. Porém, o motivo mais
importante para propor com insistência a prática do Rosário
reside no fato de este constituir um meio validíssimo para
favorecer entre os crentes aquele compromisso de
contemplação do mistério cristão que propus, na Carta
apostólica Novo millennio ineunte, como verdadeira e própria
pedagogia da santidade: « Há necessidade dum cristianismo
que se destaque principalmente pela arte da oração ».9
Enquanto que na cultura contemporânea, mesmo entre tantas
contradições, emerge uma nova exigência de espiritualidade,
solicitada inclusive pela influência de outras religiões, é
extremamente urgente que as nossas comunidades cristãs se
tornem « autênticas escolas de oração ».10 Oração pela paz e pela família 6. A dar maior atualidade ao
relançamento do Rosário temos algumas circunstâncias
históricas. A primeira delas é a urgência de invocar de
Deus o dom da paz. O Rosário foi, por diversas vezes,
proposto pelos meus Predecessores e mesmo por mim como
oração pela paz. No início de um Milênio, que começou com
as cenas assustadoras do atentado de 11 de Setembro de 2001 e
que registra, cada dia, em tantas partes do mundo novas
situações de sangue e violência, descobrir novamente o
Rosário significa mergulhar na contemplação do mistério
d'Aquele que « é a nossa paz », tendo feito « de dois
povos um só, destruindo o muro da inimizade que os separava
» (Ef 2, 14). Portanto não se pode recitar o Rosário sem
sentir-se chamado a um preciso compromisso de serviço à paz,
especialmente na terra de Jesus, tão atormentada ainda, e
tão querida ao coração cristão. « Eis a tua mãe! » (Jo 19, 27) 7. Numerosos sinais demonstram quanto a Virgem Maria queira, também hoje, precisamente através desta oração, exercer aquele cuidado maternal ao qual o Redentor prestes a morrer confiou, na pessoa do discípulo predileto, todos os filhos da Igreja: « Mulher, eis aí o teu filho » (Jo19, 26). São conhecidas, ao longo dos séculos XIX e XX, várias ocasiões, nas quais a Mãe de Cristo fez, de algum modo, sentir a sua presença e a sua voz para exortar o Povo de Deus a esta forma de oração contemplativa. Em particular desejo lembrar, pela incisiva influência que conservam na vida dos cristãos e pelo reconhecimento recebido da Igreja, as aparições de Lourdes e de Fátima,11 cujos respectivos Santuários são meta de numerosos peregrinos, em busca de conforto e de esperança. Na senda das testemunhas 8. Seria impossível citar a
multidão sem conta de Santos que encontraram no Rosário um
autêntico caminho de santificação. Bastará recordar S.
Luís Maria Grignion de Montfort, autor de uma preciosa obra
sobre o Rosário12 e, em nossos dias, Padre Pio de Pietrelcina,
que recentemente tive a alegria de canonizar. Além disso um
carisma especial, como verdadeiro apóstolo do Rosário, teve
o Beato Bártolo Longo. O seu caminho de santidade assenta
numa inspiração ouvida no fundo do coração: « Quem
difunde o Rosário, salva-se! ».13 Baseado nisto, ele
sentiu-se chamado a construir em Pompéia um templo dedicado
à Virgem do Santo Rosário no cenário dos restos da antiga
cidade, ainda pouco tocada pelo anúncio cristão quando foi
sepultada em 79 pela erupção do Vesúvio e surgida das suas
cinzas séculos depois como testemunho das luzes e sombras da
civilização clássica. CAPÍTULO I - CONTEMPLAR CRISTO COM MARIA Um rosto resplandecente como o sol 9. « Transfigurou-Se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol » (Mt 17, 2). A cena evangélica da transfiguração de Cristo, na qual os três apóstolos Pedro, Tiago e João aparecem como que extasiados pela beleza do Redentor, pode ser tomada como ícone da contemplação cristã. Fixar os olhos no rosto de Cristo, reconhecer o seu mistério no caminho ordinário e doloroso da sua humanidade, até perceber o brilho divino definitivamente manifestado no Ressuscitado glorificado à direita do Pai, é a tarefa de cada discípulo de Cristo; é por conseguinte também a nossa tarefa. Contemplando este rosto, dispomo-nos a acolher o mistério da vida trinitária, para experimentar sempre de novo o amor do Pai e gozar da alegria do Espírito Santo. Realiza-se assim também para nós a palavra de S. Paulo: « Refletindo a glória do Senhor, como um espelho, somos transformados de glória em glória, nessa mesma imagem, sempre mais resplandecente, pela ação do Espírito do Senhor » (2Cor 3, 18). Maria, modelo de contemplação 10. A contemplação de
Cristo tem em Maria o seu modelo insuperável. O rosto do
Filho pertence-lhe sob um título especial. Foi no seu ventre
que Se plasmou, recebendo d'Ela também uma semelhança humana
que evoca uma intimidade espiritual certamente ainda maior. À
contemplação do rosto de Cristo, ninguém se dedicou com a
mesma assiduidade de Maria. Os olhos do seu coração
concentram-se de algum modo sobre Ele já na Anunciação,
quando O concebe por obra do Espírito Santo; nos meses
seguintes, começa a sentir sua presença e a pressagiar os
contornos. Quando finalmente O dá à luz em Belém, também
os seus olhos de carne podem fixar-se com ternura no rosto do
Filho, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura (cf.
Lc 2, 7). As recordações de Maria 11. Maria vive com os olhos
fixos em Cristo e guarda cada palavra sua: « Conservava todas
estas coisas, ponderando-as no seu coração » (Lc 2, 19; cf.
2, 51). As recordações de Jesus, estampadas na sua alma,
acompanharam-na em cada circunstância, levando-a a percorrer
novamente com o pensamento os vários momentos da sua vida
junto com o Filho. Foram estas recordações que
constituíram, de certo modo, o “rosário” que Ela mesma
recitou constantemente nos dias da sua vida terrena. Rosário, oração contemplativa 12. O Rosário, precisamente
a partir da experiência de Maria, é uma oração
marcadamente contemplativa. Privado desta dimensão, perderia
sentido, como sublinhava Paulo VI: « Sem contemplação, o
Rosário é um corpo sem alma e a sua recitação corre o
perigo de tornar-se uma repetição mecânica de fórmulas e
de vir a achar-se em contradição com a advertência de
Jesus: “Na oração não useis como os gentios, que imaginam
que hão de ser ouvidos graças à sua verbosidade” (Mt 6,
7). Por sua natureza, a recitação do Rosário requer um
ritmo tranqüilo e uma certa demora a pensar, que favoreçam,
naquele que ora, a meditação dos mistérios da vida do
Senhor, vistos através do Coração d'Aquela que mais de
perto esteve em contato com o mesmo Senhor, e que abram o
acesso às suas insondáveis riquezas ».14 Recordar Cristo com Maria 13. O contemplar de Maria é,
antes de mais, um recordar. Convém, no entanto, entender esta
palavra no sentido bíblico da memória (zakar), que atualiza
as obras realizadas por Deus na história da salvação. A
Bíblia é narração de acontecimentos salvíficos, que
culminam no mesmo Cristo. Estes acontecimentos não constituem
somente um “ontem”; são também o “hoje” da
salvação. Aprender Cristo de Maria 14. Cristo é o Mestre por
excelência, o revelador e a revelação. Não se trata
somente de aprender as coisas que Ele ensinou, mas de “aprender
a Ele”. Porém, nisto, qual mestra mais experimentada do que
Maria? Se do lado de Deus é o Espírito, o Mestre interior,
que nos conduz à verdade plena de Cristo (cf. Jo 14, 26; 15,
26;16, 13), de entre os seres humanos, ninguém melhor do que
Ela conhece Cristo, ninguém como a Mãe pode introduzir-nos
no profundo conhecimento do seu mistério. Configurar-se a Cristo com Maria 15. A espiritualidade cristã
tem como seu caráter qualificador o empenho do discípulo em
configurar-se sempre mais com o seu Mestre (cf. Rom 8, 29; Fil
3, 10.21). A efusão do Espírito no Batismo introduz o crente
como ramo na videira que é Cristo (cf. Jo 15, 5), constitui-o
membro do seu Corpo místico (cf. 1 Cor 12, 12; Rom 12, 5).
Mas a esta unidade inicial, deve corresponder um caminho de
assimilação progressiva a Ele que oriente sempre mais o
comportamento do discípulo conforme à “lógica” de
Cristo: « Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em
Cristo Jesus » (Fil 2, 5). É necessário, segundo as
palavras do Apóstolo, « revestir-se de Cristo » (Rom13, 14;
Gal 3, 27). Suplicar a Cristo com Maria 16. Cristo convidou a
dirigirmo-nos a Deus com insistência e confiança para ser
escutados:« Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis;
batei e abrir-se-vos-á » (Mt 7, 7). O fundamento desta
eficácia da oração é a bondade do Pai, mas também a
mediação junto d'Ele por parte do mesmo Cristo (cf. 1 Jo 2,
1) e a ação do Espírito Santo, que « intercede por nós »
conforme os desígnios de Deus (cf. Rom 8, 26-27). De fato,
nós « não sabemos o que devemos pedir em nossas orações
» (Rom 8, 26) e, às vezes, não somos atendidos « porque
pedimos mal » (Tg 4, 3). Anunciar Cristo com Maria 17. O Rosário é também um itinerário de anúncio e aprofundamento, no qual o mistério de Cristo é continuamente oferecido aos diversos níveis da experiência cristã. O módulo é o de uma apresentação orante e contemplativa, que visa plasmar o discípulo segundo o coração de Cristo. De fato, se na recitação do Rosário todos os elementos para uma meditação eficaz forem devidamente valorizados, torna-se, especialmente na celebração comunitária nas paróquias e nos santuários, uma significativa oportunidade catequética que os Pastores devem saber aproveitar. A Virgem do Rosário continua também deste modo a sua obra de anúncio de Cristo. A história do Rosário mostra como esta oração foi utilizada especialmente pelos Dominicanos, num momento difícil para a Igreja por causa da difusão da heresia. Hoje encontramo-nos diante de novos desafios. Porque não retomar na mão o Terço com a fé dos que nos precederam? O Rosário conserva toda a sua força e permanece um recurso não descurável na bagagem pastoral de todo o bom evangelizador. CAPÍTULO II - MISTÉRIOS DE CRISTO MISTÉRIOS DA MÃE O Rosário, “compêndio do Evangelho” 18. À contemplação do
rosto de Cristo só podemos introduzir-nos escutando, no
Espírito, a voz do Pai, porque « ninguém conhece o Filho
senão o Pai » (Mt 11, 27). Nas proximidades de Cesaréia de
Filipe, perante a confissão de Pedro, Jesus especificará a
fonte de uma tão clara intuição da sua identidade: « Não
foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o meu Pai que
está nos céus » (Mt 16, 17). É, pois, necessária a
revelação do alto. Mas, para acolhê-la, é indispensável
colocar-se à escuta: “Só a experiência do silêncio e da
oração oferece o ambiente adequado para maturar e
desenvolver-se um conhecimento mais verdadeiro, aderente e
coerente daquele mistério”.27 Uma inserção oportuna 19. De tantos mistérios da
vida de Cristo, o Rosário, tal como se consolidou na prática
mais comum confirmada pela autoridade eclesial, aponta só
alguns. Tal seleção foi ditada pela estruturação
originária desta oração, que adotou o número 150 como o
dos Salmos. Mistérios da alegria 20. O primeiro ciclo, o dos
“mistérios gozosos”, caracteriza-se de fato pela alegria
que irradia do acontecimento da Encarnação. Isto é evidente
desde a Anunciação, quando a saudação de Gabriel à Virgem
de Nazaré se liga ao convite da alegria messiânica: «
Alegra-te, Maria ». Para este anúncio se encaminha a
história da salvação, e até, de certo modo, a história do
mundo. De fato, se o desígnio do Pai é recapitular em Cristo
todas as coisas (cf. Ef 1, 10), então todo o universo de
algum modo é alcançado pelo favor divino, com o qual o Pai
Se inclina sobre Maria para torná-La Mãe do seu Filho. Pôr
sua vez, toda a humanidade está como que incluída no fiat
com que Ela corresponde prontamente à vontade de Deus. Mistérios da luz 21. Passando da infância e
da vida de Nazaré à vida pública de Jesus, a contemplação
leva-nos aos mistérios que se podem chamar, por especial
título, “mistérios da luz”. Na verdade, todo o mistério
de Cristo é luz. Ele é a « luz do mundo » (Jo8, 12). Mas
esta dimensão emerge particularmente nos anos da vida
pública, quando Ele anuncia o evangelho do Reino. Querendo
indicar à comunidade cristã cinco momentos significativos
– mistérios luminosos – desta fase da vida de Cristo,
considero que se podem justamente individuar: 1ono seu Batismo
no Jordão, 2ona sua auto-revelação nas bodas de Caná, 3ono
seu anúncio do Reino de Deus com o convite à conversão,
4ona sua Transfiguração e, enfim, 5ona instituição da
Eucaristia, expressão sacramental do mistério pascal. Mistérios da dor 22. Os Evangelhos dão grande
relevo aos mistérios da dor de Cristo. A piedade cristã
desde sempre, especialmente na Quaresma, através do
exercício da Via Sacra, deteve-se em cada um dos momentos da
Paixão, intuindo que aqui está o ápice da revelação do
amor e a fonte da nossa salvação. O Rosário escolhe alguns
momentos da Paixão, induzindo o orante a fixar neles o olhar
do coração e a revivê-los. O itinerário meditativo abre-se
com o Getsêmani, onde Cristo vive um momento de particular
angústia perante a vontade do Pai, contra a qual a debilidade
da carne seria tentada a revoltar-se. Ali Cristo põe-Se no
lugar de todas as tentações da humanidade, e diante de todos
os seus pecados, para dizer ao Pai: « Não se faça a minha
vontade, mas a Tua » (Lc 22, 42 e par). Este seu “sim”
muda o “não” dos pais no Éden. E o quanto Lhe deverá
custar esta adesão à vontade do Pai, emerge dos mistérios
seguintes, nos quais, com a flagelação, a coroação de
espinhos, a subida ao Calvário, a morte na cruz, Ele é
lançado no maior desprezo: Ecce homo! Mistérios da glória 23. “A contemplação do
rosto de Cristo não pode deter-se na imagem do crucificado.
Ele é o Ressuscitado!”.29 O Rosário sempre expressou esta
certeza da fé, convidando o crente a ultrapassar as trevas da
Paixão, para fixar o olhar na glória de Cristo com a
Ressurreição e a Ascensão. Contemplando o Ressuscitado, o
cristão descobre novamente as razões da própria fé (cf. 1
Cor 15, 14), e revive não só a alegria daqueles a quem
Cristo Se manifestou – os Apóstolos, a Madalena, os
discípulos de Emaús –, mas também a alegria de Maria, que
deverá ter tido uma experiência não menos intensa da nova
existência do Filho glorificado. A esta glória, onde com a
Ascensão Cristo Se senta à direita do Pai, Ela mesma será
elevada com a Assunção, chegando, por especialíssimo
privilégio, a antecipar o destino reservado a todos os justos
com a ressurreição da carne. Enfim, coroada de glória –
como aparece no último mistério glorioso – Ela resplandece
como Rainha dos Anjos e dos Santos, antecipação e ponto
culminante da condição escatológica da Igreja. Dos “mistérios” ao “Mistério”: o caminho de Maria 24. Estes ciclos meditativos
propostos no Santo Rosário não são certamente exaustivos,
mas apelam ao essencial, introduzindo o espírito no gosto de
um conhecimento de Cristo que brota continuamente da fonte
límpida do texto evangélico. Cada passagem da vida de
Cristo, como é narrada pelos Evangelistas, reflete aquele
Mistério que supera todo o conhecimento (cf. Ef 3, 19). É o
Mistério do Verbo feito carne, no Qual « habita
corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col 2, 9).
Pôr isso, o Catecismo da Igreja Católica insiste tanto nos
mistérios de Cristo, lembrando que « tudo na vida de Jesus
é sinal do seu Mistério ».30 O “duc in altum” da Igreja
no terceiro Milênio é medido pela capacidade dos cristãos
de « conhecerem o mistério de Deus, isto é Cristo, no Qual
estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência
» (Col 2, 2-3). A cada batizado é dirigido este voto ardente
da Carta aos Efésios: « Que Cristo habite pela fé nos
vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na
caridade, possais [...] compreender o amor de Cristo, que
excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a
plenitude de Deus » (3, 17-19). Mistério de Cristo, “mistério” do homem 25. No citado testemunho de
1978 sobre o Rosário como minha oração predileta, exprimi
um conceito sobre o qual desejo retornar. Dizia então que «
a simples oração do Rosário marca o ritmo da vida humana
».31 CAPÍTULO III - « PARA MIM, O VIVER É CRISTO» O Rosário, caminho de assimilação do mistério 26. A meditação dos
mistérios de Cristo é proposta no Rosário com um método
característico, apropriado por sua natureza para favorecer a
assimilação dos mesmos. É o método baseado na repetição.
Isto é visível sobretudo com a Ave Maria, repetida dez vezes
em cada mistério. Considerando superficialmente uma tal
repetição, pode-se ser tentado a ver o Rosário como uma
prática árida e aborrecida. Chega-se, porém, a uma idéia
muito diferente, quando se considera o Terço como expressão
daquele amor que não se cansa de voltar à pessoa amada com
efusões que, apesar de semelhantes na sua manifestação,
são sempre novas pelo sentimento que as permeia. Um método válido... 27. Não deve maravilhar-nos
o fato de a relação com Cristo se servir também do auxílio
dum método. Deus comunica-Se ao homem, respeitando o modo de
ser da nossa natureza e os seus ritmos vitais. Pôr isso a
espiritualidade cristã, embora conhecendo as formas mais
sublimes do silêncio místico onde todas as imagens, palavras
e gestos ficam superados pela intensidade duma inefável
união do homem com Deus, normalmente passa pelo envolvimento
total da pessoa, na sua complexa realidade psico-física e
relacional. ...que todavia pode ser melhorado 28. Recordei na Carta
apostólica Novo millennio ineunte que há hoje, mesmo no
Ocidente, uma renovada exigência de meditação, que se vê
às vezes promovida noutras religiões com modalidades
cativantes.35 Não faltam cristãos que, por reduzido
conhecimento da tradição contemplativa cristã, se deixam
aliciar por tais propostas. Apesar de possuírem elementos
positivos e às vezes compatíveis com a experiência cristã,
todavia escondem freqüentemente um fundo ideológico
inaceitável. Em tais experiências, é muito comum aparecer
uma metodologia que, tendo por objetivo uma alta
concentração espiritual, recorre a técnicas repetitivas e
simbólicas de caráter psico-físico. O Rosário coloca-se
neste quadro universal da fenomenologia religiosa, mas
apresenta características próprias, que correspondem às
exigências típicas da especificidade cristã. A enunciação do mistério 29. Enunciar o mistério, com
a possibilidade até de fixar contextualmente um ícone que o
represente, é como abrir um cenário sobre o qual se
concentra a atenção. As palavras orientam a imaginação e o
espírito para aquele episódio ou momento concreto da vida de
Cristo. Na espiritualidade que se foi desenvolvendo na Igreja,
tanto a veneração de ícones como inúmeras devoções ricas
de elementos sensíveis e mesmo o método proposto por Santo
Inácio de Loiola nos Exercícios Espirituais recorrem ao
elemento visível e figurativo (a chamada compositio loci),
considerando-o de grande ajuda para facilitar a concentração
do espírito no mistério. Aliás, é uma metodologia que
corresponde à própria lógica da Encarnação: em Jesus,
Deus quis tomar feições humanas. É através da sua
realidade corpórea que somos levados a tomar contato com o
seu mistério divino. A escuta da Palavra de Deus 30. A fim de dar
fundamentação bíblica e maior profundidade à meditação,
é útil que a enunciação do mistério seja acompanhada pela
proclamação de uma passagem bíblica alusiva, que, segundo
as circunstâncias, pode ser mais ou menos longa. De fato, as
outras palavras não atingem nunca a eficácia própria da
palavra inspirada. Esta há de ser escutada com a certeza de
que é Palavra de Deus, pronunciada para o dia de hoje e “para
mim”. O silêncio 31. A escuta e a meditação alimentam-se de silêncio. Pôr isso, após a enunciação do mistério e a proclamação da Palavra, é conveniente parar, durante um côngruo período de tempo, a fixar o olhar sobre o mistério meditado, antes de começar a oração vocal. A redescoberta do valor do silêncio é um dos segredos para a prática da contemplação e da meditação. Entre as limitações duma sociedade de forte predominância tecnológica e mediática, conta-se o fato de se tornar cada vez mais difícil o silêncio. Tal como na Liturgia se recomendam momentos de silêncio, assim também na recitação do Rosário é oportuno fazer uma pausa depois da escuta da Palavra de Deus enquanto o espírito se fixa no conteúdo do relativo mistério. O “Pai nosso” 32. Após a escuta da Palavra e a concentração no mistério, é natural que o espírito se eleve para o Pai. Em cada um dos seus mistérios, Jesus leva-nos sempre até ao Pai, para Quem Ele Se volta continuamente porque repousa no seu “seio” (cf. Jo 1,18). Quer introduzir-nos na intimidade do Pai, para dizermos com Ele: « Abbá, Pai » (Rom 8, 5; Gal 4, 6). É em relação ao Pai que Ele nos torna irmãos seus e entre nós, ao comunicar-nos o Espírito que é conjuntamente d'Ele e do Pai. O “Pai nosso”, colocado quase como alicerce da meditação cristológico-mariana que se desenrola através da repetição da Ave Maria, torna a meditação do mistério, mesmo quando é feita a sós, uma experiência eclesial. As dez “Ave Marias” 33. Este elemento é o mais
encorpado do Rosário e também o que faz dele uma oração
mariana por excelência. Mas à luz da própria Ave Maria, bem
entendida, nota-se claramente que o caráter mariano não só
não se opõe ao cristológico como até o sublinha e exalta.
De fato, a primeira parte da Ave-Maria, tirada das palavras
dirigidas a Maria pelo Anjo Gabriel e por Santa Isabel, é
contemplação adoradora do mistério que se realiza na Virgem
de Nazaré. Exprimem, por assim dizer, a admiração do céu e
da terra, e deixam de certo modo transparecer o encanto do
próprio Deus ao contemplar a sua obra-prima –a encarnação
do Filho no ventre virginal de Maria – na linha daquele
olhar contente do Gênesis (cf. Gen 1, 31), daquele primordial
« pathos com que Deus, na aurora da criação, contemplou a
obra das suas mãos ».36 A repetição da Ave Maria no
Rosário sintoniza-nos com este encanto de Deus: é júbilo,
admiração, reconhecimento do maior milagre da história. É
o cumprimento da profecia de Maria: « Desde agora, todas as
gerações Me hão de chamar ditosa » (Lc 1, 48). O “Glória” 34. A doxologia trinitária
é a meta da contemplação cristã. De fato, Cristo é o
caminho que nos conduz ao Pai no Espírito. Se percorrermos em
profundidade este caminho, achamo-nos continuamente na
presença do mistério das três Pessoas divinas para As
louvar, adorar, agradecer. É importante que o Glória, apogeu
da contemplação, seja posto em grande evidência no
Rosário. Na recitação pública, poder-se-ia cantar para dar
a devida ênfase a esta perspectiva estrutural e qualificadora
de toda a oração cristã. A jaculatória final 35. Na prática corrente do
Rosário, depois da doxologia trinitária diz-se uma
jaculatória, que varia segundo os costumes. Sem diminuir em
nada o valor de tais invocações, parece oportuno assinalar
que a contemplação dos mistérios poderá manifestar melhor
toda a sua fecundidade, se tiver o cuidado de terminar cada um
dos mistérios com uma oração para obter os frutos
específicos da meditação desse mistério. Deste modo, o
Rosário poderá exprimir com maior eficácia a sua ligação
com a vida cristã. Isto mesmo no-lo sugere uma bela oração
litúrgica, que nos convida a pedir para, através da
meditação dos mistérios do Rosário, chegarmos a « imitar
o que contêm e alcançar o que prometem ».38 O terço 36. Um instrumento
tradicional na recitação do Rosário é o terço. No seu uso
mais superficial, reduz-se freqüentemente a um simples meio
para contar e registrar a sucessão das Ave-Marias. Mas,
presta-se também a exprimir simbolismos, que podem conferir
maior profundidade à contemplação. Começo e conclusão 37. Segundo a praxe comum,
são vários os modos de introduzir o Rosário nos distintos
contextos eclesiais. Em algumas regiões, costuma-se iniciar
com a invocação do Salmo 69/70: « Ó Deus, vinde em nosso
auxílio; Senhor, socorrei-nos e salvai-nos », para de certo
modo alimentar, na pessoa orante, a humilde certeza da sua
própria indigência; ao contrário, noutros lugares
começa-se com a recitação do Creio em Deus Pai, querendo de
certo modo colocar a profissão de fé como fundamento do
caminho contemplativo que se inicia. Estes e outros modos, na
medida em que dispõem melhor à contemplação, são métodos
igualmente legítimos. A recitação termina com a oração
pelas intenções do Papa, para estender o olhar de quem reza
ao amplo horizonte das necessidades eclesiais. Foi
precisamente para encorajar esta perspectiva eclesial do
Rosário que a Igreja quis enriquecê-lo com indulgências
sagradas para quem o recitar com as devidas disposições. A distribuição no tempo 38. O Rosário pode ser
recitado integralmente todos os dias, não faltando quem
louvavelmente o faça. Acaba assim por encher de oração as
jornadas de tantos contemplativos, ou servir de companhia a
doentes e idosos que dispõem de tempo em abundância. Mas é
óbvio – e isto vale com mais forte razão ao acrescentar-se
o novo ciclo dos mysteria lucis – que muitos poderão
recitar apenas uma parte, segundo uma determinada ordem
semanal. Esta distribuição pela semana acaba por dar às
sucessivas jornadas desta uma certa “cor” espiritual, de
modo análogo ao que faz a Liturgia com as várias fases do
ano litúrgico. CONCLUSÃO « Rosário
bendito de Maria, 39. Tudo o que foi dito até
agora, manifesta amplamente a riqueza desta oração
tradicional, que tem não só a simplicidade duma oração
popular, mas também a profundidade teológica duma oração
adaptada a quem sente a exigência duma contemplação mais
madura. A paz 40. As dificuldades que o
horizonte mundial apresenta, neste início de novo milênio,
levam-nos a pensar que só uma intervenção do Alto, capaz de
orientar os corações daqueles que vivem em situações de
conflito e de quantos regem os destinos das Nações, permite
esperar num futuro menos sombrio. A família: os pais... 41. Oração pela paz, o
Rosário foi desde sempre também oração da família e pela
família. Outrora, esta oração era particularmente amada
pelas famílias cristãs e favorecia certamente a sua união.
É preciso não deixar perder esta preciosa herança. Importa
voltar a rezar em família e pelas famílias, servindo-se
ainda desta forma de oração. 42. É bom e frutuoso também
confiar a esta oração o itinerário de crescimento dos
filhos. Porventura não é o Rosário o itinerário da vida de
Cristo, desde a sua concepção até à morte, ressurreição
e glória? Hoje torna-se cada vez mais árdua para os pais a
tarefa de seguirem os filhos pelas várias etapas da sua vida.
Na sociedade da tecnologia avançada, dos mass-media e da
globalização, tudo se tornou tão rápido; e a distância
cultural entre as gerações é cada vez maior. Os apelos mais
diversos e as experiências mais imprevisíveis cedo invadem a
vida das crianças e adolescentes, e os pais sentem-se às
vezes angustiados para fazer face aos riscos que aqueles
correm. Não é raro experimentarem fortes desilusões,
constatando a falência dos seus filhos perante a sedução da
droga, o fascínio dum hedonismo desenfreado, as tentações
da violência, as expressões mais variadas de falta de
sentido e de desespero. O Rosário, um tesouro a descobrir 43. Queridos irmãos e
irmãs! Uma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica
merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade
cristã. Façamo-lo sobretudo neste ano, assumindo esta
proposta como um reforço da linha traçada na Carta
apostólica Novo millennio ineunte, na qual se inspiraram os
planos pastorais de muitas Igrejas particulares ao programarem
os seus compromissos a curto prazo. Vaticano, 16 de Outubro de 2002, início do vigésimo quinto ano de Pontificado. BIBLIOGRAFIA 1Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
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